A escolha de um objeto de pesquisa

A partir da leitura de “O sonho do cartógrafo”, de James Cowan, e após assistir ao filme “Colcha de Retalhos”, dirigido por Jocelyn Moorhouse, foi possível identificar e analisar as etapas que compõem uma pesquisa, e principalmente como se delimita a escolha de um objeto de pesquisa, mesmo com inúmeros assuntos relevantes que nos rodeiam na Era da Informação.

Para se falar sobre uma pesquisa, primeiramente é necessário que se defina um tema, um objeto que será o centro de toda apuração, um assunto que renda uma discussão interessante e até mesmo alguma descoberta. Através da análise das obras citadas, pudemos perceber que a escolha deste objeto deve estar relacionada ao interesse que o mesmo desperta no pesquisador, no desejo de descoberta que ela possa instigar, e, mesmo podendo ser uma visão subjetiva, de algum modo, deve gerar uma sensação de “insaciedade”, de “inconformidade” com tudo que já foi abordado sobre o assunto ao qual se deseja conhecer mais. Acreditamos que é esta sensação que rege a vontade de realizar descobertas e contribuições na conclusão de uma pesquisa.

Tanto o livro como o filme transmitem a mensagem que para um projeto é preciso identificação e muito desejo de descobrir algo; ir além daquilo que se mostra superficial e óbvio. Mas, para que isto aconteça é primordial saber onde se quer chegar. O risco de se perder pelo caminho é grande, afinal os direcionamentos são infinitos. E com isto a possibilidade de perder estímulo.

O estímulo vem de onde? O que faz nós determinarmos um caminho e seguir até chegar a uma conclusão. Afinal todos os caminhos tem mão e contramão e lados diferentes. Estamos o tempo todo interagindo com diversos sentimentos e relações cujo aprendizado se alcança unicamente por nos permitir a vivenciar essa realidade.

A vida nos expõem a diversas realidades, umas boas outras nem tanto, o que importa é sabermos interpretá-las e construir uma nova. E nesta realidade é que devemos nos decidir qual comportamento seguir. Apenas o que nos é mais adequado. Será que ser focado e determinado é melhor caminho? Não acredito nisso. Ser focado e determinado pode ser muito limitador. Quanto mais abertos a novos aprendizados e vivências somos capazes de processar novos conhecimentos.

Para a personagem Finn Dodd (Wynona Ryder), esta escolha (e até mesmo o encontro desta sensação de interesse) não foi fácil. Ela até cita em algumas passagens do filme que perde o interesse sobre o assunto quando começa a estudá-lo. Embora enfrente esta dificuldade, Finn acaba encontrando um tema que, além de despertar seu interesse, permite que ela faça descobertas até mesmo no campo da vida pessoal. Ao fim do estudo, percebemos como a pesquisa ajudou Finn no encontro de questionamentos que ela levou por toda vida.

Entre histórias de vida contadas por diferentes senhoras, Finn escreve sua tese e constrói suas próprias conclusões sobre a vida e o amor. Relacionamos essas descobertas com nosso projeto específico.

O objeto de pesquisa da Amanda está relacionado a um interesse profissional. Como Social Media da empresa Bhtec, pretende estudar estratégias usadas por algumas organizações nacionais para conceder visibilidade às suas marcas nas redes sociais, canais que estão se tornando cada vez mais populares no Brasil. Apesar das muitas discussões que rondam o tema, acredita que ainda há muito a ser falado – e é este algo a mais que pretende trazer ao projeto. Após conversar, analisar e entender o que existe hoje no mercado, deseja encontrar as próprias estratégias para o trabalho, que, ao contrário do que muitos pensam, está longe de ser simples.

Assim como Fra Mauro escrevia sobre as novas fronteiras do conhecimento, deseja escrever não apenas sobre o já descoberto, mas quer focar a pesquisa no novo e nas tendências desta nova Era para “avançar rumo ao desconhecido”.

O projeto de pesquisa da Patricia relaciona a dificuldade da personagem Finn Dodd com o tema de seu projeto. Será que a personagem Finn Dodd teria menos dificuldade se não estivesse tão sozinha em seu projeto de pesquisa? O estudo será como a colaboração no ambiente web pode proporcionar novos conhecimentos. Baseia o estudo na teoria de Vigostki, estudioso russo que viveu no início do século XX na URSS. Vigostky defendia a tese que o desenvolvimento se dá pela internalização de influências externas e quanto o maior o aprendizado em determinado grupo e a interação com outros indivíduos maior se desenvolve o sujeito.

Acredita que a personagem Finn Dodd teria outra percepção de seu projeto e estudo se pudesse compartilhar suas dúvidas e questionamentos com outras pessoas com interesses comuns porém vivências diferentes. E como afirma Oliveira (2003) citando Maturama e Varela (1984) conhecer é viver, é conviver, é reconhecer. Conhecer não implica, necessariamente, alcançar o novo, mas sim recombinar e relacionar realidades e emoções vividas ou experimentadas.

Não defende o total compartilhamento do estudo da personagem, mas apenas que uma convivência para troca de informações daria a ela uma ideia da hora de finalizar e não somente se desestimular e buscar outro tema para a pesquisa. Perceba que a situação se modifica quando a personagem Finn Dodd está na casa da avó e começa uma inesperada convivência com as amigas da casa e as pessoas da cidade; o seu projeto se desenvolve.

Para nós, Amada e Patricia, esta vivência nos dias de hoje está diretamente ligada aos avanços tecnológicas, em maior valor as plataformas de colaboração digital. A Internet se fortalece cada vez mais como ponto de interação social, seja nas plataformas de colaboração ou nas redes sociais. É nessa realidade que nossos projetos de pesquisa pretende entender como a informação, que é matéria-prima para o conhecimento, pode a partir de uma interação social em ambiente digital promover novos conhecimentos para os atores envolvidos.

E para finalizar, é necessário ter em mente que a construção de uma pesquisa se assemelha muito à costura de uma colcha de retalhos: primeiro é preciso pensar sobre o que será escrito, em seguida dar uma forma ao trabalho, nunca se esquecendo de harmonizar, da melhor forma possível, todos os itens que o compõe.
Por Amanda Navarro e Patricia Canarim

Texto escrito como trabalho da Especialização em Informação Estratégica da UFMG em dezembro de 2010.

Referências
OLIVEIRA, Rosely. A construção do conhecimento nas práticas de educação em saúde: repensando a relação entre profissionais dos serviços e a população. Ciência da Informação. Revista Perspectiva. Minas Gerais, 2003.

VIGOTSKI, L.S. A Formação Social da Mente. São Paulo. Ed. Martins Fontes, 1998.

COWAN James. O Sonho do Cartógrafo. Meditações de Fra Mauro na corte de Veneza do século XVI. Editora Rocco. Rio de Janeiro, 1999.
COLCHA de Retalhos. (How to Make an American Quilt). Direção: Jocelyn Moorhouse. 1995 (EUA). Atores:Wynona Ryder, Anne Bancroft, Ellen Burstyn, Kate Nelligan.

NASSIF BORGES, Mônica Erichsen, CABRAL, Ana Maria Rezende, LIMA, Gercina Ângela de Oliveira, DUMONT, Lígia Maria Moreira, NAVES, Madalena Martins Lopes, BORGES,Henrique Elias. A ciência da informação discutida à luz das teorias cognitivas: estudos atuais e perspectivas para a área. Cadernos Bad 2 (2004).

MATURAMA, H. Emoções e Linguagem na educação e na política. Belo Horizonte: ED. UFMG, 1998.

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário