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Ainda há sol, ando em sua direção com meu chapéu panamá e óculos escuros. Faço sucesso, percebo os olhares das mulheres e dos homens. Vou caminhando observando as pessoas a minha volta, passo pelo primeiro quiosque cumprimento com um aceno de cabeça algumas pessoas, caminho e vejo todo dia a mesma enfermeira que empurra uma cadeira de roda com um senhor que mal se mexe e tem um olhar distante. Outra enfermeira empurra um carrinho de bebe, este dorme. Passa por mim também corredores, vendedores ambulantes, artistas da praia. Um rapaz caminha e fala algo – imperceptível para mim – mas a mulher a minha frente ouve e o manda a merda. O amigo da carrocinha percebe minha aproximação, e vai logo me gritando “Vai uma tapioca?”.

Continuo andando em direção ao sol. Alguns percebem minha diária presença no calçadão, outros não. Aquelas pessoas criam uma curiosidade a meu respeito, percebo pelos olhares que me acompanham ao passar e pelo burburinho que causo.

Caminhar pela orla carioca é um exercício gratificante de amor ao Rio. Praia, sol, pessoas lindas ou não, uns jogam vôlei, futevôlei, andam, correm, pegam sol ou fazem nada curtindo mais um dia de bonito e claro na cidade. Tem razão aquela imagem que roda as redes sociais, morar no Rio é um privilégio. Há 8 meses curto essa cidade, me sinto carioca, e sego caminhando.

Meu chapéu panamá voa longe, o vento me faz correr em direção a rua com o sinal aberto, um carro buzina, outro desvia de mim, escuto alguns palavrões, uns me chamam de louco, o ônibus para próximo a mim, engarrafando o trânsito. Um rapaz mais ágil alcança meu chapéu panamá e voltando para a calçada grita: “Esse tem história para valer tanto esforço!” Todos na calçada olham para mim, escuto risos, comentários. Um me chamou a atenção
– humm, ainda pego esse cara!
Olho de lado, dou um sorriso e me direciono ao rapaz que segura meu chapéu.
– Gracias.

Continuo andando de óculos escuros e com meu chapéu panamá em minhas mãos.

Patricia Canarim