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O quarto está escuro mesmo com o dia claro, já que as janelas fechadas cortam a iluminação e dão uma sensação de entardecer na casa. Deitado na cama com os pés cruzados sobre uma almofada, Miguel olha para a TV, mas não parece vê-la. A porta do quarto é aberta bem devagarinho e logo fechada. Passam-se alguns minutos e o mesmo movimento na porta. Miguel sequer se mexe.

A porta é aberta novamente, é Janaína: “Pai, trouxe um sanduíche para você. Foi tia Roberta que fez, come um pouco.”

Miguel se ajeita na cama, pega o sanduíche e come. Sem olhar para Janaína.

“Mamãe tinha muitos amigos, até o diretor dela apareceu.” Miguel confirma com a cabeça mas continua sem olhar para a filha.

Janaína senta na cama, se vira para ver o que está passando na TV, “você está vendo isso?”. De volta para o pai avisa que a tia Roberta vai dormir toda esta semana com eles e completa: “Você não vai trabalhar amanhã, não é?”

“Não.”

“Esta semana também não vou à aula.”

“Eu vi o Rogério.” diz Miguel.

“É, ele foi. Mas não veio para cá!”

Miguel termina de comer o sanduíche e bate as mãos sob o prato, uma contra a outra, para tirar os farelos. Levanta, vai a até a TV e a desliga. “Toda essa tragédia, Janaína”, comenta o quanto foram difíceis esses dois dias para eles. “Há dias percebo que você anda diferente. Até havia comentado com sua mãe.”

Janaína pega uma almofada que está ao lado, a abraça e lembra ao pai que é época de provas na escola.

“Época de provas nunca foi motivo para você ficar diferente, Janaína.”
“Ai, pai, hoje não.”

“Janaína, ontem quando fui buscar você no pronto socorro o rapaz do atendimento fez um comentário, disse “estão bem.” Na hora pensei em você e sua mãe e que ele havia se confundido com outras pessoas atendidas. E somente hoje quando vi o Rogério que me dei conta que o atendente não estava falando de sua mãe.”

“Hoje não é um bom dia para isso.”

“BOM DIA PARA ISSO?”

“Desculpa. Para onde você e sua mãe estavam indo ontem?”

“Para uma clínica fazer um exame.”

“Janaína, você está dizendo que sua mãe…” É interrompido pela filha.

“Não, pai. Mamãe nunca concordaria com isso, era eu que queria ter informação… Não importa mais, a batida do ônibus nos impediu de chegar lá.”

Miguel volta a sentar na cama ao lado da filha, abaixa a cabeça a apoiando sobre o braços e pergunta com o tom de voz bem baixo: “Quanto tempo?”

“Acho que um mês. Vou remarcar a consulta e o Rogério falou que quer ir comigo e que estará sempre ao meu lado.”

Na mesma posição Miguel balança a cabeça no sentido negativo: “Vocês são duas….”

Janaína interrompe com um sorriso no rosto completa: “somos três.”

Patricia Canarim