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Correr, correr, correr, devagar é verdade; olhando sempre para frente, prestando atenção na respiração. Inspira pelo nariz, expira pela boca; inspira pelo nariz, expira pela boca. Repite como se fosse um mantra. Concentração alcançada, a mente liberada para viajar.
Lembrei da frase “A vida não se faz sozinho, a vida se faz no plural” dita pela jornalista Neide Duarte num documentário, não lembro mais o nome, mas essa frase me fez pensar. Cantar, carreira solo, eu, você. Cadê o plural? A vida é no plural, por mais que não pareça. A ação está sempre vinculada a uma parceria. Preciso encontrar, melhor, identificar os plurais em minha vida. Cantar junto, banda, carreira com a banda, eu, você, nós.
Esses eram os meus pensamento enquanto fazia minha corrida diária. Ainda estava no primeiro quilometro, apenas no começo dos 10.

E me vem a mente a primeira vez que fui numa corrida, eu era o apoio de um corredor. Éramos nós. Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro, dia claro, temperatura agradável, paisagem estupenda agraciada com milhares de corredores. Quando me dei conta estava torcendo por todas aquelas pessoas que estavam ali competindo não entre si, mas com elas mesmas, em busca de uma realização, em busca do melhor tempo. Fiquei fascinada com o clima entre os competidores. Desde então, tenho corrido com regularidade para relaxar da tensão do trabalho, meu corredor daquele dia já não seguimos mais o mesmo caminho.
Sétimo quilômetro e a primeira pessoa do plural é nós. Já me senti assim, nós, muitos. De família grande, era a segunda de quatro irmãos, com muitos tios e primos. Todos cresceram, alguns se foram, novos chegaram e os feriados e datas comemorativas se responsabilizam para que nós nos reencontramos.

Corro, respiro, busca a concentração perdida, em menos de 1km termino o treino. E me vem a mente… mentira. Ele caminha na orla do Rio, volta para casa, sei que atrai a atenção das pessoas… preciso pensar em outro assunto, a vida no plural é transformar ele e eu em nós.

Patricia Canarim